CorsooEngenharia de Organização

1. O Cemitério das Metodologias

Parte I — O Problema e a Ideia


A maioria das organizações não sabe, no momento em que precisa saber, se seus projetos serão entregues no prazo e dentro do orçamento. O status real de um projeto depende de reunião, de relatório consolidado manualmente, de disponibilidade de quem o gerencia. Quando a informação chega, a janela de correção já fechou.

Isso não é um acidente. É o resultado previsível de cinquenta anos de metodologias que falham de formas opostas.


As duas falências

RUP e Waterfall — completos, mas engessados e pesados demais. Reconhecem que requisito importa, que planejamento importa, que documentação importa. E afundam o projeto em meses de levantamento antes da primeira entrega. São ótimos para levantar. Péssimos para executar.

Scrum — aberto demais, sem controle real de prazo e orçamento. Prometeu agilidade, entregou cerimônia disfarçada de processo. Pergunte a um Scrum Master quanto o projeto vai custar e quando fica pronto. A resposta honesta é: ninguém sabe. A resposta padrão é uma aula sobre velocity.

Entre o excesso de peso e a ausência de controle, o mercado inventou variações. Nenhuma resolveu o problema. Todas têm vaga no mesmo cemitério.


O custo real do Scrum

O Scrum não é gratuito. Em uma sprint de duas semanas (80 horas por pessoa), as cerimônias obrigatórias consomem:

Cerimônia Tempo por sprint
Daily (15min × 10 dias) 2h30
Planning ~3h
Grooming / Refinement ~3h
Review / Demo ~1h30
Retrospectiva ~1h30
Total conservador ~10h
Total real (atrasos, sobreposições, re-reuniões) ~14h a 16h

Isso representa de 25% a 40% do tempo de cada profissional — gasto em cerimônia, não em entrega.

O custo em dinheiro:

Com esse valor, contrata-se um profissional dedicado para planejar o projeto inteiro antes de começar — e ainda sobra.

O argumento "dev não gosta de planejamento" é a maior mentira da indústria. Dev não gosta de planejamento inútil e fragmentado. Coloque um dev numa sala com um roteiro bem escrito, onde ele vê o sistema inteiro, as dependências, o que vem antes e o que vem depois — ele entende, ele contribui, ele executa. Porque finalmente faz sentido.


O diagnóstico, metodologia por metodologia

Metodologia Diagnóstico
Scrum Prometeu agilidade, entregou cerimônia disfarçada de processo. 25–40% do tempo em reunião.
Prince2 Scrum com terno. Mesmos problemas, linguagem mais formal. Esparadrapo em ferida aberta.
PMBOK Ágil Frankenstein. PMBOK pesado com "ágil" colado no nome. Não é nem um nem outro.
PMBOK Puro O certificado virou fim em si mesmo. Sabe refazer baseline, não sabe ler o projeto.
RUP O mais honesto — reconhece que requisito importa. Mas parou no meio. Ótimo para levantar, péssimo para executar. RUP = RIP.
RUP + UML Diagrama de caso de uso + sequência + classes. O arquiteto entende. O cliente nunca abriu o documento.
SAFe Scrum que descobriu que não escalava. Em vez de resolver, adicionou camadas, cerimônias e papéis. Burocracia corporativa com nome ágil. Bom para quem vende consultoria SAFe.
Retrospectiva Sessão semanal de terapia e auto-engano. Para a equipe, vira círculo de conversa. Para o projeto, não muda nada.

O tom é duro de propósito. Cada uma dessas metodologias teve sua chance — décadas de chance — e o resultado agregado é uma indústria onde estourar prazo e orçamento é o esperado, não a exceção.


O problema central

Todas essas metodologias compartilham o mesmo defeito de nascença: criaram linguagens que excluem quem mais precisa entender.

O dono da empresa não lê diagrama UML. Não sabe o que é épico, story point ou velocity. E é ele quem paga o projeto, aprova o orçamento e responde pelo resultado.

O dono da empresa quer três respostas:

  1. O que vai ser entregue?
  2. Quando fica pronto?
  3. Quanto vai custar?

Nenhuma metodologia do cemitério responde às três de forma confiável. O RUP responde depois de meses de documentação. O Scrum não responde nunca — responde com uma métrica interna que só faz sentido para quem está dentro do ritual.

Mas o dono da empresa entende roteiro, cena, corte final e estreia. Todo mundo entende. É a linguagem de uma indústria que faz projetos complexos há mais de cem anos — e que conquistou o vocabulário do público no processo.


A pergunta que ninguém fez

Se as metodologias de software falham há cinquenta anos, qual indústria acerta?

Qual indústria monta equipes temporárias de centenas de pessoas, com orçamentos milionários, calendários apertados e deadlines sagrados — e entrega, repetidamente, há mais de um século?

O Cinema.

A pizza tem mise en place. O avião tem checklist. O filme tem pré-produção. O projeto de sistema merece o mesmo.

O próximo capítulo mostra o que o cinema resolveu — e o que o Corsoo traduz dele.


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