6. Hierarquia de Trabalho
Parte II — A Linguagem
Todo o trabalho de um projeto Corsoo vive em uma hierarquia de cinco níveis:
PROJETO
└── ESCALETA (lista ordenada de todos os fluxos)
└── FLUXO (microprojeto com início, meio e fim)
└── PASSO (tarefa mínima e concreta)
└── RECURSO (insumo técnico do passo)
Não há níveis intermediários, não há "épicos", não há agrupamentos inventados no meio do caminho. Cinco níveis bastam para uma calculadora e para um SAP — o que muda é a quantidade, nunca a estrutura.
Projeto
A entidade raiz. Todo projeto tem:
- Um Número Corsoo (
#1848) — identidade única e permanente - Uma logline — o contrato de intenção
- Um roteiro — a narrativa completa
- Uma escaleta — o índice ordenado dos fluxos
Um projeto só existe dentro da metodologia quando tem número registrado. Antes disso é ideia — respeitável, mas não rastreável.
Escaleta
A lista ordenada de todos os fluxos do projeto, com dependências mapeadas.
O nome vem do italiano scaletta — diminutivo de scala, escada. A escaleta registra os degraus que o projeto precisa subir para chegar ao fim. Cada fluxo é um degrau.
Três propriedades importam:
- É gerada do roteiro — não é alimentada manualmente. Escreveu-se um fluxo novo no roteiro, ele entra na escaleta.
- É ordenada — a sequência tem lógica narrativa e técnica, não é uma lista solta de desejos priorizada em reunião.
- Carrega as dependências — a escaleta é a espinha estrutural do projeto: define ordem de execução, dependências e caminho crítico.
A escaleta é o que o backlog do Scrum nunca conseguiu ser: um índice com fundamento. Os itens não nascem de achismo — nascem da narrativa, com contexto, sequência e dependências explícitas.
Fluxo
Microprojeto com início, meio e fim. Funcionalidade completa e autônoma. Tem resultado. Tem receita. Tem ingredientes.
- Não é uma tela isolada.
- Não é uma tarefa.
- É uma jornada completa: começa, acontece, termina, tem resultado.
Exemplos: Login, Cadastro, Recuperação de Senha, Checkout, Geração de Relatório.
O fluxo de Login tem uma história: alguém chega, tenta entrar, o sistema valida, algo acontece, há um resultado. Isso é um fluxo. A "tela de login" sozinha não é — é um elemento do inventário que o fluxo atravessa.
Cada fluxo carrega:
- Uma narrativa escrita no roteiro
- Uma lista ordenada de passos
- Dependências de outros fluxos
- Um status, uma saúde e uma tendência
- Os critérios de pós-produção
E a regra de ouro — um fluxo só está pronto quando:
- Funciona sozinho.
- Funciona com suas dependências.
- Não quebra o que já foi entregue.
O tamanho certo de um fluxo
O tamanho de um fluxo não se mede em contagem de passos — mede-se pela jornada. O teste prático: consegue-se nomear o fluxo com um substantivo de jornada ("Checkout", "Recuperação de Senha")? Consegue-se dizer o resultado em uma frase? Se sim, é um fluxo. Se dentro dele existe um resultado intermediário completo que valeria entregar sozinho, ali provavelmente há dois fluxos — o corte é pela narrativa, nunca por número.
Passo
Tarefa mínima e concreta dentro de um fluxo. Atômico — ou existe ou não existe, ou está feito ou não está. Não tem sub-passos.
O passo é o que o desenvolvedor abre de manhã e sabe exatamente o que fazer. Sem ambiguidade. Sem interpretação.
Exemplo — os passos do fluxo Login:
| Passo | Descrição | Estimativa |
|---|---|---|
#1848.01.1 |
Campo email com validação de formato | 2h |
#1848.01.2 |
Campo senha com mostrar/ocultar | 1h |
#1848.01.3 |
Botão entrar com estado de loading | 2h |
#1848.01.4 |
Integração com API de autenticação e geração de JWT | 4h |
#1848.01.5 |
Mensagem de erro para credenciais inválidas | 1h |
#1848.01.6 |
Redirecionamento para Dashboard após sucesso | 1h |
Cada passo carrega: descrição concreta, estimativa (e a data de entrega que dela deriva), dependências, status, responsável, recursos, e — se bloqueado — o registro do bloqueio com data, motivo e endereço do elemento bloqueante.
O tamanho do passo é o tamanho da atividade
Estimativa é estimativa: pode ser um minuto, dezesseis horas, trinta dias — o tamanho é o da atividade real, não o de uma caixinha imposta pela metodologia.
O passo é atômico em responsabilidade, não em duração: um dono, uma entrega, feito ou não feito. Pegou, fez, fechou. Quebrar uma atividade de dezesseis horas em duas de oito para caber numa regra não gera controle — gera contabilidade de mentira. E agrupar "atividadezinhas" para engordar um passo é o mesmo erro no espelho.
Da estimativa nasce uma data. O profissional organiza a própria agenda — trabalhar seis, oito ou doze horas num dia é problema (e liberdade) dele. O que ele deve ao projeto é a entrega dentro da estimativa; o que o planejador acompanha é a data e as dependências — não o relógio de ninguém. O Corsoo não gerencia gente por hora; gerencia projeto por entrega. Passou da data? Aparece no Slate, com endereço — sem precisar fatiar atividade para vigiar o meio dela.
O que é, sim, obrigação do planejamento: as interdependências. Uma atividade que precisa de duas outras concluídas, ou de outras pessoas junto — isso a decupagem declara no passo (dependencies, participantes). É a informação de que o projeto precisa; o resto é agenda de quem executa.
Estimativa no Corsoo
Não existe fibonacci, planning poker ou story point. O passo é concreto por definição — tem estimativa real, do tamanho que a atividade tiver, dada por quem executa. Da estimativa nasce a data de entrega do passo; do encadeamento das datas pelas dependências nasce o prazo do fluxo; do caminho crítico da escaleta nasce o prazo do projeto.
Sabe quantos fluxos, quantos passos, a estimativa e as dependências de cada um — tem o plano. Igual ao cinema há cem anos.
Recurso
Insumo técnico declarado no passo antes de ser usado. Biblioteca, API, serviço, token, dataset, material.
{
"name": "jsonwebtoken",
"type": "library",
"version": "9.0.0",
"license": "MIT",
"security_status": "verified",
"added_by": "dev_01",
"added_at": "2026-03-06T10:00:00Z"
}
A declaração de recursos em cada passo gera automaticamente o SBOM do projeto (Software Bill of Materials) — a lista completa de dependências, com rastreabilidade de onde cada uma entrou e quem a introduziu. Em outros domínios, o mesmo mecanismo gera a lista de materiais da obra ou os insumos da campanha.
O ciclo de vida do recurso tem três estados:
security_status |
Significa |
|---|---|
declared |
Declarado no passo, ainda não avaliado |
verified |
Avaliado e aprovado conforme a política do projeto |
rejected |
Reprovado — o passo precisa de alternativa |
Quem verifica é definido pela política do projeto — por padrão, o Diretor ou quem ele delegar. Um recurso rejected bloqueia o passo que o declara: isso transforma auditoria de dependências de evento anual traumático em rotina invisível.
Por que cinco níveis bastam
A tentação de criar níveis intermediários — "módulos", "temas", "iniciativas" — é o primeiro sintoma de projeto mal decupado. Agrupamento é visão, não estrutura: o Slate agrupa, filtra e soma o que quiser por cima do endereço universal, sem inventar camadas novas.
A hierarquia fixa é o que torna o endereço universal possível — e o endereço é o assunto do próximo capítulo.
Corsoo, Engenharia de Organização · corsoo.org