CorsooEngenharia de Organização

6. Hierarquia de Trabalho

Parte II — A Linguagem


Todo o trabalho de um projeto Corsoo vive em uma hierarquia de cinco níveis:

PROJETO
  └── ESCALETA (lista ordenada de todos os fluxos)
        └── FLUXO (microprojeto com início, meio e fim)
              └── PASSO (tarefa mínima e concreta)
                    └── RECURSO (insumo técnico do passo)

Não há níveis intermediários, não há "épicos", não há agrupamentos inventados no meio do caminho. Cinco níveis bastam para uma calculadora e para um SAP — o que muda é a quantidade, nunca a estrutura.


Projeto

A entidade raiz. Todo projeto tem:

Um projeto só existe dentro da metodologia quando tem número registrado. Antes disso é ideia — respeitável, mas não rastreável.


Escaleta

A lista ordenada de todos os fluxos do projeto, com dependências mapeadas.

O nome vem do italiano scaletta — diminutivo de scala, escada. A escaleta registra os degraus que o projeto precisa subir para chegar ao fim. Cada fluxo é um degrau.

Três propriedades importam:

  1. É gerada do roteiro — não é alimentada manualmente. Escreveu-se um fluxo novo no roteiro, ele entra na escaleta.
  2. É ordenada — a sequência tem lógica narrativa e técnica, não é uma lista solta de desejos priorizada em reunião.
  3. Carrega as dependências — a escaleta é a espinha estrutural do projeto: define ordem de execução, dependências e caminho crítico.

A escaleta é o que o backlog do Scrum nunca conseguiu ser: um índice com fundamento. Os itens não nascem de achismo — nascem da narrativa, com contexto, sequência e dependências explícitas.


Fluxo

Microprojeto com início, meio e fim. Funcionalidade completa e autônoma. Tem resultado. Tem receita. Tem ingredientes.

Exemplos: Login, Cadastro, Recuperação de Senha, Checkout, Geração de Relatório.

O fluxo de Login tem uma história: alguém chega, tenta entrar, o sistema valida, algo acontece, há um resultado. Isso é um fluxo. A "tela de login" sozinha não é — é um elemento do inventário que o fluxo atravessa.

Cada fluxo carrega:

E a regra de ouro — um fluxo só está pronto quando:

  1. Funciona sozinho.
  2. Funciona com suas dependências.
  3. Não quebra o que já foi entregue.

O tamanho certo de um fluxo

O tamanho de um fluxo não se mede em contagem de passos — mede-se pela jornada. O teste prático: consegue-se nomear o fluxo com um substantivo de jornada ("Checkout", "Recuperação de Senha")? Consegue-se dizer o resultado em uma frase? Se sim, é um fluxo. Se dentro dele existe um resultado intermediário completo que valeria entregar sozinho, ali provavelmente há dois fluxos — o corte é pela narrativa, nunca por número.


Passo

Tarefa mínima e concreta dentro de um fluxo. Atômico — ou existe ou não existe, ou está feito ou não está. Não tem sub-passos.

O passo é o que o desenvolvedor abre de manhã e sabe exatamente o que fazer. Sem ambiguidade. Sem interpretação.

Exemplo — os passos do fluxo Login:

Passo Descrição Estimativa
#1848.01.1 Campo email com validação de formato 2h
#1848.01.2 Campo senha com mostrar/ocultar 1h
#1848.01.3 Botão entrar com estado de loading 2h
#1848.01.4 Integração com API de autenticação e geração de JWT 4h
#1848.01.5 Mensagem de erro para credenciais inválidas 1h
#1848.01.6 Redirecionamento para Dashboard após sucesso 1h

Cada passo carrega: descrição concreta, estimativa (e a data de entrega que dela deriva), dependências, status, responsável, recursos, e — se bloqueado — o registro do bloqueio com data, motivo e endereço do elemento bloqueante.

O tamanho do passo é o tamanho da atividade

Estimativa é estimativa: pode ser um minuto, dezesseis horas, trinta dias — o tamanho é o da atividade real, não o de uma caixinha imposta pela metodologia.

O passo é atômico em responsabilidade, não em duração: um dono, uma entrega, feito ou não feito. Pegou, fez, fechou. Quebrar uma atividade de dezesseis horas em duas de oito para caber numa regra não gera controle — gera contabilidade de mentira. E agrupar "atividadezinhas" para engordar um passo é o mesmo erro no espelho.

Da estimativa nasce uma data. O profissional organiza a própria agenda — trabalhar seis, oito ou doze horas num dia é problema (e liberdade) dele. O que ele deve ao projeto é a entrega dentro da estimativa; o que o planejador acompanha é a data e as dependências — não o relógio de ninguém. O Corsoo não gerencia gente por hora; gerencia projeto por entrega. Passou da data? Aparece no Slate, com endereço — sem precisar fatiar atividade para vigiar o meio dela.

O que é, sim, obrigação do planejamento: as interdependências. Uma atividade que precisa de duas outras concluídas, ou de outras pessoas junto — isso a decupagem declara no passo (dependencies, participantes). É a informação de que o projeto precisa; o resto é agenda de quem executa.

Estimativa no Corsoo

Não existe fibonacci, planning poker ou story point. O passo é concreto por definição — tem estimativa real, do tamanho que a atividade tiver, dada por quem executa. Da estimativa nasce a data de entrega do passo; do encadeamento das datas pelas dependências nasce o prazo do fluxo; do caminho crítico da escaleta nasce o prazo do projeto.

Sabe quantos fluxos, quantos passos, a estimativa e as dependências de cada um — tem o plano. Igual ao cinema há cem anos.


Recurso

Insumo técnico declarado no passo antes de ser usado. Biblioteca, API, serviço, token, dataset, material.

{
  "name": "jsonwebtoken",
  "type": "library",
  "version": "9.0.0",
  "license": "MIT",
  "security_status": "verified",
  "added_by": "dev_01",
  "added_at": "2026-03-06T10:00:00Z"
}

A declaração de recursos em cada passo gera automaticamente o SBOM do projeto (Software Bill of Materials) — a lista completa de dependências, com rastreabilidade de onde cada uma entrou e quem a introduziu. Em outros domínios, o mesmo mecanismo gera a lista de materiais da obra ou os insumos da campanha.

O ciclo de vida do recurso tem três estados:

security_status Significa
declared Declarado no passo, ainda não avaliado
verified Avaliado e aprovado conforme a política do projeto
rejected Reprovado — o passo precisa de alternativa

Quem verifica é definido pela política do projeto — por padrão, o Diretor ou quem ele delegar. Um recurso rejected bloqueia o passo que o declara: isso transforma auditoria de dependências de evento anual traumático em rotina invisível.


Por que cinco níveis bastam

A tentação de criar níveis intermediários — "módulos", "temas", "iniciativas" — é o primeiro sintoma de projeto mal decupado. Agrupamento é visão, não estrutura: o Slate agrupa, filtra e soma o que quiser por cima do endereço universal, sem inventar camadas novas.

A hierarquia fixa é o que torna o endereço universal possível — e o endereço é o assunto do próximo capítulo.


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