CorsooEngenharia de Organização

24. Substituição e Adoção

Parte VI — A Prática


O Corsoo não compete com as metodologias do cemitério — as substitui. E substituição, no Corsoo, é palavra técnica: dentro de um projeto, ou é Corsoo inteiro, ou não é Corsoo. Não existe "Corsoo com um pouco de Scrum", como não existe "grávida pela metade".


Por que não se mistura

A tentação é conhecida: "vamos adotar o Corsoo, mas manter as sprints", "usar o roteiro, mas estimar em story points", "ter a escaleta e o backlog". O capítulo 1 já mostrou onde isso termina — o cemitério tem uma ala inteira para híbridos: o PMBOK Ágil é o Frankenstein oficial; o SAFe é o Scrum que, em vez de admitir que não escalava, colou camadas de outra coisa por cima.

Juntar metodologias para entregar não é agregação — é gambiarra. Se uma metodologia precisa de outra para entregar, ela é furada. E a soma de duas furadas não entrega — remenda.

A razão é estrutural, não estética. Uma metodologia é um sistema de verdade: define qual documento manda, qual número vale, o que "pronto" significa. Misturar dois sistemas de verdade produz duas verdades — e duas verdades é o mesmo que nenhuma:

Por isso a conformidade (Capítulo 3) é binária e os conceitos excluídos são excluídos por presença, não por dosagem: um sprint que "só organiza o ritmo" já quebrou a escaleta; um épico "só para agrupar" já furou a hierarquia.

O que não é mistura

A régua para não virar caça às bruxas — três coisas que não são metodologia e portanto não violam nada:

E compliance corporativo? Não é metodologia concorrente — é requisito de fronteira, e o Corsoo o alimenta melhor do que qualquer processo que a auditoria já viu: registro imutável, evidência datada, SBOM, cadeia de aprovações. Organizações reguladas não adaptam o Corsoo ao compliance; descobrem que ele já chegou vestido.


Migração — o mapa de Rosetta

Para quem vem do Scrum/Jira, a tradução de conceitos. O mapa serve para traduzir o vocabulário na cabeça de quem chega — não para operar os dois sistemas ao mesmo tempo. Traduzir é aprender; operar os dois é gambiarra.

Você tinha Vira Observação
Épico Fluxo (às vezes 2–3) Se o épico não tem jornada com resultado, era um rótulo, não uma entrega
User story Passo — ou fluxo pequeno "Como usuário quero..." vira narrativa de roteiro, onde sempre deveria ter vivido
Story points Horas por passo A conversão honesta: ninguém nunca soube quanto valia um ponto
Sprint A produção segue a escaleta; caixas de tempo não existem
Backlog Escaleta Ordenada por narrativa e dependência, não por "prioridade" de reunião
Daily standup Daily Corsoo Gerado, não performado
Review/demo Pós-produção por fluxo Com critérios técnicos e assinatura, não aplausos
Retrospectiva O que ela prometia (aprendizado) o histórico entrega com dados
Velocity Vazão real Horas de passos concluídos por dia — medida, não estimada
PO Roteirista (certificado) A mudança mais profunda: o papel vira profissão

Adoção — o caminho dos três projetos

A adoção é integral por projeto, progressiva por organização. A organização não migra por decreto na segunda-feira; migra projeto a projeto — mas cada projeto fica inteiro de um lado ou do outro da linha.

Projeto 1 — o piloto. Um projeto novo, time pequeno, patrocinador de verdade. Corsoo completo do zero: logline, argumento, roteiro, greenlight, número. Novo é essencial — e puro é inegociável: o piloto híbrido não testa o Corsoo, testa a gambiarra.

Projeto 2 — a calibração. Segundo projeto com as lições do primeiro: decupagem mais afiada, estimativas com histórico, time fluente na linguagem. É aqui que a organização descobre suas categorias próprias e suas taxas reais.

Projeto 3 — o padrão. No terceiro, o Corsoo não é mais experimento — é como se trabalha. O Slate mostra o portfólio, o score tem lastro mínimo, e a pergunta muda de "vamos usar Corsoo?" para "por que este projeto não tem número?".

E o legado? Não se opera híbrido. Projeto em andamento termina como nasceu — com a metodologia que o pariu, até a entrega ou o arquivamento. Se vale a pena renascer, o corte é limpo: encerra-se formalmente o legado, e o trabalho restante vira um projeto Corsoo novo — número novo, roteiro do que falta (a engenharia reversa da narrativa é reveladora por si só), greenlight novo. O que não existe é meio-projeto em cada mundo, com dois quadros, duas verdades e nenhum responsável.


O posicionamento — marketing de guerrilha

A comunicação do Corsoo não pede licença nem debate em pé de igualdade — compara e deixa a comparação trabalhar:

O tom provoca de propósito — guerrilha é a arma de quem não tem o orçamento do incumbente. Mas a provocação é a embalagem, não o produto: cada farpa tem um capítulo deste livro por trás, com o argumento técnico completo. Provocar sem entregar é marketing; entregar sem provocar é invisibilidade. O Corsoo faz os dois na ordem certa.

E a régua definitiva permanece sendo a mais simples:

O dono da empresa não lê diagrama UML, não sabe o que é velocity. Mas entende roteiro, fluxo, corte final e estreia. A metodologia que exclui quem paga por ela não merece sobreviver.


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