CorsooEngenharia de Organização

10. Pré-produção

Parte III — O Ciclo de Vida


A pré-produção é a fase que o software sempre pulou — e é exatamente onde o cinema ganha o jogo.

Com roteiro e greenlight aprovados, toda a preparação para a execução é concluída antes de a execução começar. Nada de "descobrir fazendo": o descobrir aconteceu no roteiro, onde errar custa uma reescrita; o fazer acontece depois, onde errar custa dinheiro.

Quatro artefatos saem desta fase: a decupagem, o storyboard, a escaleta e o plano de execução.


Decupagem

A decupagem é a quebra técnica do roteiro em unidades executáveis — o registro narrativo virando registro decupado (Capítulo 5): fluxos identificados, e cada fluxo quebrado em passos atômicos com estimativa em horas.

O método, fluxo a fluxo:

  1. Isole a jornada. Confirme que o fluxo tem início, meio, fim e resultado. Se não tem, volte ao roteiro — o problema é de escrita, não de decupagem.
  2. Percorra a narrativa marcação a marcação. Cada @[screen:...] novo, cada @[system:...] integrado, cada @[rule:...] aplicada, cada @[SE] de erro — tudo vira candidato a passo.
  3. Concretize. Cada passo é uma atividade com dono e descrição sem ambiguidade — do tamanho que a atividade tiver. O teste: um profissional que não participou da conversa consegue executar lendo só a descrição?
  4. Estime com quem executa. A estimativa é de quem faz — não do gerente, não do consenso de sala. Um minuto ou trinta dias: o tamanho é o da realidade. Da estimativa nasce a data de entrega do passo.
  5. Declare os recursos. Biblioteca, API, serviço, material — cada insumo declarado no passo que o introduz (security_status: declared).
  6. Classifique o risco. Cada fluxo recebe low, medium ou high, com descrição e mitigação quando não for low. É daqui que sai a contingência do orçamento.
  7. Mapeie as interdependências. O passo 6 do Login depende do Dashboard existir? Registre dependencies: ["#1848.02"]. E dependência não é só de artefato: a atividade que precisa de duas outras concluídas — ou de outras pessoas junto — declara isso no passo. Essa é a informação de que o planejamento realmente precisa; dependência descoberta agora é plano, descoberta na produção é bloqueio.

O teste da decupagem:

  1. Teste da manhã — cada passo é algo que alguém abre de manhã e sabe exatamente o que fazer?
  2. Teste da soma — a soma das horas dos passos produz o prazo e o orçamento do fluxo, sem números órfãos?
  3. Teste da dependência — todo @[flow:...] citado no roteiro tem sua dependência registrada na escaleta?

Storyboard

O storyboard é a representação visual do roteiro — cada fluxo ganha forma antes de ser construído.

A forma varia por domínio; a função é a mesma — ver antes de fazer:

Domínio Storyboard é
Software Wireframes e mockups de cada tela do inventário
Construção Plantas, cortes, maquete, renderização
Produto físico Sketches, protótipo, render 3D
Marketing Moodboard, layouts das peças, storyboard clássico do filme

A regra de suficiência: o storyboard cobre todo o inventário de telas (ou equivalente do domínio) gerado pelo roteiro. Tela sem storyboard é surpresa agendada para a produção. Fidelidade é decisão do projeto — rabisco de papel fotografado é artefato válido; o que não é válido é a tela que só existe na cabeça de alguém.


Escaleta

A escaleta — a lista ordenada de todos os fluxos com dependências — é gerada do roteiro decupado, não construída à mão. A pré-produção a revisa e a congela como plano:


Plano de execução

O equivalente Corsoo do plano de filmagem: quem faz o quê, quando, a que custo.


O paralelismo de produção

O prêmio da pré-produção completa: todos os departamentos trabalham em paralelo, sem esperar uns aos outros.

Igual ao cinema: enquanto se filma a cena 10, a arte monta o cenário da cena 30, o figurino prepara a 45, o som grava a trilha. O que torna isso possível não é heroísmo de coordenação — é o roteiro decupado, que deu a cada departamento sua lista completa de trabalho no primeiro dia.


O custo da fase — e por que ele compensa

A pré-produção parece cara porque é visível: semanas de trabalho antes de "começar de verdade". A comparação honesta é com o custo invisível da alternativa — os 25–40% de cerimônia perpétua do Scrum, o retrabalho de descobrir dependências em produção, o mês de dezembro queimado refazendo o que outubro fez errado.

O cinema não faz pré-produção por amor a papelada. Faz porque um dia de set custa uma fortuna, e cada problema resolvido no papel é um problema que não parou o set. Substitua "set" por "time de produção" e a conta é a mesma.


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