CorsooEngenharia de Organização

9. Greenlight

Parte III — O Ciclo de Vida


No cinema, nenhum estúdio filma um roteiro só porque ele é bom. Alguém aprova — formalmente, com assinatura, orçamento e data. Esse momento tem nome: greenlight.

No Corsoo, o greenlight é a fase em que o projeto deixa de ser documento e vira compromisso. Antes dele, tudo é reversível e barato. Depois dele, existe orçamento aprovado, prazo declarado, número registrado — e mudar passa a ter procedimento.


A Ficha de Greenlight

A aprovação não é um "pode fazer" por e-mail. É uma ficha com dimensões declaradas e registradas:

Dimensão O que declara Exemplos
Público Para quem o projeto existe Classificação etária, acessibilidade, idiomas
Mercado Onde o projeto compete B2B, B2C, B2B2C ou interno; segmento; geografia
Tom Como o projeto se comunica Formal, casual, técnico, lúdico, institucional
Identidade visual Como o projeto se apresenta Paleta, estilo, referências
Distribuição Por onde o projeto chega Web, mobile, API, desktop, embedded
Orçamento Quanto custa Valor derivado da decupagem do roteiro — não chute

Por que isso vem antes de qualquer execução: público, mercado, tom e distribuição impactam tudo que vem depois — arquitetura, UX, personas, requisitos legais, infraestrutura. Definir depois gera retrabalho; no Corsoo, é declarado antes de qualquer artefato de execução ser produzido. As personas do roteiro nascem da ficha — não são inventadas no meio do projeto.

A ficha registra também quem aprovou e quando (approved_by, approved_at) e a visibilidade do projeto:

Em ambos os casos, a prova de existência é a mesma. O que muda é quanto o mundo vê.


O orçamento só existe depois do roteiro

Esta é a regra mais violada de toda a gestão de projetos — e a mais inegociável do Corsoo:

Sem roteiro não há decupagem. Sem decupagem não há soma real. Orçamento produzido antes do roteiro é palpite com autoridade emprestada.

O orçamento Corsoo é de baixo para cima, derivado da estrutura:

orçamento = Σ (horas dos passos × taxa do perfil alocado)
          + Σ (recursos com custo: licenças, serviços, materiais)
          + contingência por risco

A contingência é declarada por fluxo, conforme o nível de risco registrado na decupagem:

Risco do fluxo Contingência padrão
low 5%
medium 10%
high 20%

Os percentuais são o padrão v1 — a ficha pode declarar outros, desde que declare. O que não existe é contingência invisível embutida em estimativa inflada: a gordura, se houver, tem nome, linha e justificativa.

O resultado: quando o dono pergunta "quanto custa e quando fica pronto?", a resposta é a soma auditável de uma estrutura que ele mesmo pode ler — não um número redondo defendido com carisma.


O greenlight financeiro

O greenlight é o momento em que o projeto recebe seu Número Corsoo — a identidade única, universal e permanente, com timestamp registrado (Capítulo 17).

Para projetos comerciais, o ato de pagar pelo número é simbólico e prático ao mesmo tempo: é o greenlight financeiro — o instante em que o projeto deixa de ser ideia e vira compromisso real. Custa menos que um almoço de negócios e vale como declaração formal de existência.

A partir daqui, o projeto tem três coisas que a maioria dos projetos nunca tem: uma frase que define o que ele é, um documento que justifica por que existe, e um número que prova desde quando.


A Emenda de Roteiro

Depois do greenlight, o roteiro é contrato. E contratos mudam — por aditivo, não por rasura.

Toda mudança de escopo pós-greenlight é registrada como Emenda de Roteiro, um artefato com:

Campo Conteúdo
O que muda Fluxos e passos adicionados, alterados ou cortados
Por quê A motivação registrada — pedido do cliente, mudança de mercado, aprendizado técnico
Impacto em prazo Recalculado pela estrutura (novos passos → novas horas → novo prazo)
Impacto em orçamento Recalculado da mesma forma
Quem aprova Quem aprovou o greenlight original

Três níveis de mudança, três tratamentos:

  1. Ajuste — correção que não altera escopo, prazo ou orçamento (redação, detalhe de decupagem). Registra-se no histórico do roteiro, sem emenda.
  2. Emenda — mudança de escopo com impacto dentro da tolerância declarada na ficha de greenlight (padrão v1: até 10% de prazo ou orçamento). Aprovada pelo Produtor com o patrocinador.
  3. Novo greenlight — mudança que estoura a tolerância, ou que altera a essência da logline. Se a logline mudou de essência, o projeto virou outro projeto: registra-se novo número, e o anterior é arquivado com referência cruzada. O número é o contrato — contrato de outra coisa é outro contrato.

A emenda não é fricção contra mudança. É o mecanismo que permite mudar sem apagar a história: o escopo cresceu e todo mundo sabe quando, quanto e por decisão de quem. O scope creep morre não por proibição, mas por exposição.


O teste do greenlight

Um greenlight está pronto quando passa nos três testes:

  1. Teste da ficha — todas as dimensões declaradas? Alguém consegue tomar decisões de arquitetura, UX e infraestrutura lendo só a ficha?
  2. Teste da soma — o orçamento é a soma auditável da decupagem, com contingência explícita? Se o número não se decompõe em passos, é chute.
  3. Teste do compromisso — está registrado quem aprovou, quando, e com que tolerância para emendas?

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